11/12/09

A ordem dos desajustados

Às vezes me sinto como um alienígena vivendo entre os humanos, às vezes não, sempre. Caminhando pelas ruas de concreto sem poder ver o horizonte, pois ele também está tomado por muros de concreto. Sinto falta do meu mundo. De minha velha civilização. Eu, Mariano Torres sou assim. Eu sou o tipo de sujeito que não quer se encaixar entre os humanos, não entendo por que fui deixado aqui. Não cometi nenhum crime.

Lembro-me do dia em que cheguei neste planeta, abriu-se diante dos meus olhos uma luz ofuscante... O medo foi instantâneo, logo me perguntei que forma orgânica de vida é esta? Estou tão frágil, sem poderes, sem independência. Demorou sete anos... Sete anos, tu fazes idéia de quanto tempo é isto? Muito tempo. Todo ele perdido. Demorou sete anos para que eu pudesse contemplar junto de minha natureza os meus pensamentos e solidão necessária. Ao completar dezesseis anos no exílio compreendi que talvez eu tivesse sido deixado neste planeta primitivo por um propósito, compreender como é ser humano. Compreender como é viver com dor, mas ao mesmo tempo com alegria.

Percebi que eu não me encaixava de modo algum entre os nativos deste planeta, fui ofendido, desestimulado, castigado e absolvido. Nunca compreendi. Algumas pessoas pelos cantos diziam que eu era um intelectual, outros diziam que eu Mariano Torres precisava de tratamento médico. - Tratamento médico? Ponderei sobre o questionamento. Conclui. Queriam que Mariano Torres se tratasse pelo fato de não compartilhar com as idéias frívolas e boçais de pessoas tão burras e preguiçosas que nem mereciam serem chamadas de humanas. Por isto, eu compreendi. Pobre Mariano.

Caminhando pelas calçadas da cidade de concreto e contemplando o horizonte de cor cinza, reparei que havia outros iguais a Mariano, havia tantos. Peças que não queriam fazer parte de uma engrenagem falha, pobre, deselegante e suja. Reparei que uns olhavam apenas para o chão, olhavam apenas o chão sujo e cinza. Reparei que outros olhavam com os olhos erguidos, firmes, orgulhosos por não ser igual à massa... A massa fútil. Havia ali uma ordem dos desajustados sociais, não marginais, mas mesmo assim deixados de lado. Não eram os desajustados que tinham medo, mas a sociedade deles, afinal eles não eram programados. Apenas viviam conforme a terra girasse, porém, sem deixar de traçar os próprios caminhos. Ali eu me encaixei.

Eu pude ver homens e mulheres geniais, geniosos, altruístas e gananciosos sem deixarem de serem desajustados. Eles eram humanos. Esta era a sua natureza. Os humanos são dóceis, mesmo sendo venenosos como as serpentes do deserto. Eles cativaram seus lideres, eles cativaram seus inimigos, eles espremeram os seus próprios compatriotas em jaulas... Eles faziam o que era preciso pra sobreviver. Sem culpa.

Eu pude ver corpos estendidos nas ruas que eram repletas de cinzas, eu pude ver seus lideres explorando-os. Então consegui compreender a ordem dos desajustados, afinal quem pode viver em um mundo tão frívolo e gélido...?

Os humanos?

2 comentários:

Christiano Benicio disse...

“Que obra de arte é o homem: tão nobre no raciocínio; tão vário na capacidade; em forma e movimento, tão preciso e admirável, na ação é como um anjo; no entendimento é como um Deus; a beleza do mundo, o exemplo dos animais.”

William Shakespeare

A que homem Shakespeare se referia? Realmente, não somos mais humanos, é preferível ser um alienígena hoje em dia...

Dayane disse...

Adorei seu desabafo,que é na real uma grande verdade.Muito bom saber que existe pessoas comprometidas a tentar fazer a sua parte num mundo tão confuso e desordenado.
O mundo virtual nos proporciona conhecer pessoas que fazem a diferença. Foi muito bom conhecer você virtualmente, continue assim.
Haaa saiba que arrumou uma fã hehehe um abraço de Dayane Honorto.